RECADO ÀS MÃES QUE NÃO SÃO MÃES! - 28/04/09

Ao se aproximar o Dia das Mães, uma análise diferente - ou mais ampla - da maternidade.

Você deve estar estranhando o título, mas é isso mesmo. Com a proximidade do Dia das Mães, palavras ou frases meio óbvias saem de todas as bocas, de todas as mídias, de qualquer um de nós, de mim, inclusive. Mas, eu quis fazer algo diferente aqui, sair da mesmice do “Ser mãe é padecer no paraíso”, frases feitas, elogios iguais e ir um pouco além da imagem da mãe tradicional.

Quero falar das mães que não são mães, biologicamente falando. Parei para pensar nelas e foram surgindo tantas imagens, lembrei das inúmeras mulheres (e homens) vivendo situações diversas, maternalmente falando, que resolvi escrever para que todos, sem distinção, sejam lembrados.

Em primeiro lugar, quero registrar meu carinho às mulheres que estão passando por uma verdadeira via-crúcis para realizar o sonho da maternidade. Sonho que as faz enfrentar dezenas de exames, intervenções cirúrgicas, inseminações artificiais, fertilizações in vitro, gastar uma verdadeira fortuna para alimentar a esperança e manter a fé. E o que são essas mulheres senão mães da fé? Abençoadas sejam um dia com o sonho realizado.

Depois, acredito ser mais do que necessário enviar palavras de carinho para aquelas que viram frustradas todas as tentativas naturais e artificiais de gerar uma vida. Mulheres cujos olhos são rios de lágrimas por abortos indesejados. Carregam no peito um vazio por se sentirem incompletas, uma falta que julgam, jamais será preenchida. Dizem que a dor que sentem é maior do que a do parto e quem há de contradizer? Pena que essas mulheres não percebam que são mães, sim. Basta apenas que olhem a vida com outros olhos, ou melhor, redimensionem o olhar. Começando por aplicar o desejo, o instinto maternal de outra forma. Porque ser mãe, mulheres, vai muito além do ato de parir.

Continuando, preciso enviar minhas palavras de carinho às mulheres que optaram por virar a página do sofrimento e assumiram a adoção. Mães guerreiras, corajosas, cobrem de amor o filho que, se do ventre não veio, isso não faz a menor diferença.

Envio, também, meu carinho às avós-mães, aquelas que atenderam aos apelos da jovem filha que mal sabia cuidar de um bebê. E foram trocando fraldas, dando comida, limpando os ouvidos, dando colinho, fazendo ninar. E depois, quando acabou a licença-maternidade, continuou a avó-mãe nos cuidados, levando o neto-filho ao médico, à escola, à festinha, à praia... E só ela faz aquele bolo de chocolate delicioso, só ela faz baixar a febre, só ela compreende os choramingos, só ela tem paciência para contar histórias... só ela... só ela.

Envio meu carinho às tias-mães, aquelas que transferiram para seus sobrinhos o amor ao filho que nunca tiveram. Igual ao das madrinhas-mães que babam em eterna e deliciosa corujice. Aqui abro um parêntese para um alerta aos pais: pensem 10, 100, 1.000 vezes, quantas forem necessárias, mas escolham a dedo os padrinhos de seus filhos. São os segundos pais ou pelo menos, deveriam ser. Padrinhos devem ser modelos para os seus afilhados, exemplos de vida, de aconselhamento na hora certa, de compreensão. Padrinho é ato sublime de doação.

E já que falei em pais, não poderia esquecer dos pais-mães, que são tantos e por tantos motivos. Seja pelo falecimento ou doença da esposa, seja pelo abandono do lar, seja pela distância – embora presente, de quem nunca teve vocação para ser mãe. É, tem isso, sim! São inúmeras as mulheres que delegam aos maridos a função de mãe – como se ser mãe fosse apenas função, daquelas que só dão trabalho e torram a paciência. São inúmeros os pais, ainda mais nos dias de hoje, que são verdadeiras Mães, com “M” maiúsculo, mesmo!

Enfim, a todos os casos reais lembrados aqui e para os não lembrados também, mas igualmente maternais, o meu carinho. Se você se identificou, sinta-se realmente no rol de homenageados por essa data tão particularmente especial.

E já que ela é especial, que tal uma curiosidade? Não que eu concorde plenamente com a frase “ser mãe é padecer no paraíso”, mas que o poema de autoria de Coelho Neto é belíssimo, disso não tenho dúvida. Saboreie, então, suas palavras. E parabéns a todos aqueles que sabem que amor de mãe nasce na alma.

Ser Mãe
Por Coelho Neto*
 
Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.
 
Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!
 
Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!
 
Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!
  
* Coelho Neto (Henrique Maximiano C. N.), professor, político, romancista, contista, crítico, teatrólogo, memorialista e poeta, nasceu em Caxias, MA, em 21 de fevereiro de 1864, e faleceu no Rio de Janeiro em 28 de novembro de 1934. É o fundador da Cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras, que tem como patrono Álvares de Azevedo. Foi, por muitos anos, o escritor mais lido do Brasil.

 



anterior | voltar para Colunas | próxima