Maria Antonieta, a última rainha da França, tinha 500 sapatos e um serviçal cujo único trabalho era catalogar os pares por cor, data e estilo. A atriz Claudia Raia nunca escondeu ter centenas de calçados. Imelda Marcos, mulher do ex-ditador filipino Ferdinando Marcos, ficou famosa por seus três mil pares de sapatos. Eu não tenho centenas, mas confesso adorar sandálias, chanel, escarpins e afins. Só que jamais imaginei que esse objeto pudesse dizer tanto sobre nós, mais do que todo um guarda-roupa. Pra vocês terem uma idéia, o consultor de moda Gustavo Sarti disse que uma mulher que adorna o pé com uma mule está mandando a seguinte mensagem: “Tenho sexo à flor da pele”. Nossa!! Será?
Alguns psiquiatras descrevem a relação entre salto alto e o sexo, sugerindo que as mulheres o utilizam como uma espécie de paliativo para a inveja do pênis, devido à semelhança com o órgão sexual masculino. Exageros à parte, não é difícil entender porque o sapato de salto alto exerce tanto fascínio. Afinal, é um calçado exclusivamente feminino. Seu uso projeta os seios para frente, salienta as nádegas, alonga as pernas, faz com que o pé pareça menor e, principalmente, torna o nosso andar mais elegante.
Li uma entrevista muito interessante feita pela antropóloga Lígia Krás com a estilista Raquel Medeiros, para o Moda Brasil do UOL. Como a Internet é rápida e fascinante, logo consegui o telefone da Raquel e conversamos sobre suas opiniões um tanto polêmicas. Segundo ela, cada calçado tem um significado. A bota representa o poder, o bico fino é um símbolo fálico, sandálias com pulseiras o aprisionamento, a boqueira aberta representa o flerte, o sapato fechado pessoas contidas, o lacinho nas sandálias é como se fosse a decoração dos seios, sapatos super abertos representam a disponibilidade e a vulnerabilidade, sapatilha é a sensualidade lolita, o sapato estilo Chanel é uma amante discreta, e por aí vai.
Mas, como surgiram esses conceitos? Raquel explica que é formada em Estilismo pelo SENAI e fez Escola de Criação na ESPM, em Porto Alegre. Dentre seus trabalhos estão treinamentos e palestras sobre moda e serviços de personal stylist, embora hoje atue somente como estilista, em São Paulo. Ela diz que sempre se interessou pelo lado psicológico que envolve o modo com que as pessoas se vestem. Para o workshop “Sapato: uma relação entre moda e sexo”, que ministra, ela diz ter se baseado nos livros O Código do Vestir, de Toby Fischer – Mirkin, que fala sobre as mensagens que passamos através das roupas e acessórios, e Fetiche: Moda, Sexo & Poder, de Valerie Steele, além de arquivos pessoais de Internet e revistas que guarda há muito tempo.
Para Raquel, as pessoas podem camuflar suas mensagens sexuais pelo modo como escolhem suas roupas, mas com o sapato nem sempre isso é possível. “Às vezes, uma executiva super formal pode demonstrar ser uma pessoa que pensa bastante em sexo somente pelo sapato que usa. Além disso, dizem que expor o pé é quase tão íntimo como expor o seio. Há uma teoria muito antiga, de mais de 10.000 anos, que diz que o ato de enfiar o pé em um sapato recriaria o ato sexual. Seguindo esta linha, Freud dizia que o sapato da mulher simbolizava sua vagina. Assim, a moda cria modelos que trazem mensagens sexuais que muitas vezes nem mesmo o estilista que criou a peça sabe, mas nosso subconsciente processa essa informação.”
Bom, então, de agora em diante, é bom você prestar atenção no que coloca nos pés. Ele pode dizer muito mais do que você imagina sobre a sua personalidade e... preferências sexuais!